Viralatismo literário



            *José Renato Nalini

            O complexo de vira-lata do brasileiro não é de hoje e é generalizado. Ninguém escapa dele. Houve tempos em que a França era a grande inspiração. Depois passou a ser os Estados Unidos, hoje, a competirem com a China. Mas é coisa antiga.

            Ao comentar a visita de um jornalista brasileiro ao escritor argentino Enrique Larretta, que era uma das figuras de maior evidência nas letras argentinas do século passado, Humberto de Campos fazia comparação com os intelectuais brasileiros.

            Enquanto Larretta vivia no interior da Argentina, em uma estância que explorava, multiplicando sua fortuna e seus livros, e a viajar a cada dois anos a Paris, onde tinha um grande nome e fora embaixador de seu governo, a situação brasileira era muito diferente.

            Ele enxergava um “confronto triste com as figuras de maior relevo em nosso mundo literário. O escritor brasileiro é, sempre, um parasita dos cofres públicos. Ao descobrir, com razão ou sem ela, que pode escrever para os outros, o moço brasileiro sai de sua cidade, onde era empregado do comércio, ou do sítio onde ajudava o pai, e vinha para a capital, para aumentar o exército dos devoradores do orçamento”.

            Isso comprometia a produção literária. “Além da falta de caráter individual, que se reflete na literatura, esta se ressente da falta de cenários verdadeiramente nacionais. Que podem saber, na verdade, da vida nas nossas fazendas, nos nossos seringais, nas nossas regiões florestais, indivíduos que lá não viveram, ou que, quando muito, por lá apareceram a passeio? A burocracia, a Avenida, as rodinhas maldizentes que se formam aos cantos de cada rua em que passam mulheres sem pudor e sem espírito, são o ímã que atrai, e destrói, quase tudo que o Brasil poderia aproveitar no domínio das letras”.

            Era muito cáustico e pessimista o tom de Humberto de Campos em 1928: “A literatura brasileira, magra, esquálida, repugnante, tem lima úlcera na perna, e pede esmola, a boca em praga e a mão estendida, nas ruas centrais do Rio de Janeiro”.

            O que ele diria hoje de nosso ambiente literário?

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Comentários