Samba-enredo sobre Lula na Sapucaí com patrocínio da União em ano eleitoral: o escárnio do Carnaval 2026
Deputada
Federal Rosana Valle (PL-SP)*
Ao
longo dos 25 anos em que atuei como jornalista, cobri muitos carnavais. Fui testemunha
da força da cultura popular, da criatividade e da dedicação das comunidades, da
emoção que transforma a avenida do samba num retrato do Brasil - alegre,
trabalhador e que nunca desiste. O Carnaval é do povo. Sempre foi.
Mas
o que estamos presenciando, agora, não é apenas defesa da Cultura ou apoio à
maior manifestação popular do País. É Política. E, pior: com o apoio financeiro
da máquina pública em pleno ano eleitoral.
No
Rio de Janeiro, a escola de samba Acadêmicos de Niterói levará à Marquês de
Sapucaí um enredo de exaltação ao presidente da República em exercício, Luiz
Inácio Lula da Silva (PT). O problema, a meu ver, não é a liberdade artística,
mas, sim, o contexto.
Vejamos:
há um contrato de R$ 12 milhões da Agência Brasileira de Promoção Internacional
do Turismo (Embratur) com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de
Janeiro (Liesa), que prevê o repasse de cerca de R$ 1 milhão para cada
agremiação do Grupo Especial, entre elas a escola de Niterói.
Quando
dinheiro público está envolvido e a homenagem é dirigida a um mandatário,
justamente no ano em que os brasileiros irão às urnas para escolher presidente
da República, governadores, senadores e deputados estaduais e federais, o sinal
de alerta precisa ser acionado.
Não
por acaso, parlamentares do PL, do Novo e do Republicanos acionaram a
Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Tribunal de Contas da União (TCU)
para que seja analisada a regularidade dos recursos que estão saindo dos cofres
da União para a agenda carnavalesca carioca. A área técnica do TCU, aliás, já
apontou para um possível desvio de finalidade.
Como
deputada federal pelo PL, em meu segundo mandato, reforço esses
questionamentos. E é importante deixar claro: não se trata de censurar o
Carnaval, mas de defender a Constituição Federal. A administração pública deve,
afinal, obedecer ao princípio da impessoalidade. O Estado não pode promover a
imagem de quem está no poder, seja quem for.
Na
prática, estamos falando de um presidente em exercício que será exaltado em
plena Sapucaí, com samba-enredo financiado com recursos públicos e com
transmissão para todo o Brasil e para o mundo, justamente no ano em que
disputará a reeleição. Se isso não levanta dúvidas institucionais, então, o
princípio da impessoalidade corre o risco de se tornar apenas uma expressão
formal de nosso ordenamento jurídico.
A
Democracia não se fragiliza apenas em grandes rupturas. Ela se desgasta quando
limites começam a ser relativizados, quando o poder público se confunde com a
promoção de quem governa, e quando a máquina estatal deixa de ser neutra.
O
ambiente institucional de hoje, convenhamos, não inspira confiança. Cresce, dia
a dia, a percepção de que a balança da Justiça nem sempre pesa da mesma forma
para todos. Algumas situações são rapidamente investigadas, enquanto outras
parecem não ter a mesma urgência.
Mesmo
assim, o silêncio não é uma opção. A função de quem exerce mandato não é se
acomodar. É registrar, fiscalizar, alertar e, principalmente, não se calar.
Ignorar sinais de possível abuso é permitir que os limites continuem avançando.
O
Carnaval é do povo. O Estado é do povo. O dinheiro público, também. Misturar
máquina pública, promoção pessoal e corrida eleitoral não é apenas inadequado -
é inaceitável e perigoso. Um verdadeiro escárnio.
Quando
o poder entra na avenida, o problema não é o samba, mas o que isso revela sobre
o momento pelo qual atravessa o País. E o Brasil exige, mais do que nunca,
vigilância e responsabilidade.
*Rosana Valle é deputada federal pelo PL-SP, em
segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo;
jornalista há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1” e “Rota do
Sol 2”

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