Por Marcelo Mendes
Várias empresas brasileiras estão em busca mercados externos, especialmente depois do último impasse tarifário. Contudo num cenário mais amplo e atual de sobrevivência é muito significativo considerar a invasão de produtos chineses no Brasil e a concorrência desleal que se apresenta no comércio exterior.
Quando um produto chinês é importado ele não necessariamente traz embutidas as mesmas condições de trabalho que as empresas brasileiras se ocupam no Brasil internamente. Seus funcionários em regime de CLT têm peculiaridades bastante diferentes dos assalariados do chamado ‘Império do Meio’. Numa comparação básica do trabalhador chinês com o brasileiro pode-se começar pela jornada de trabalho.
Aqui vai ser de 40 horas semanais e na China a legislação também estabelece a jornada padrão de 40 horas semanais, mas a realidade é que muitas vezes o horário dos chineses é marcado por longas jornadas de trabalho e uma cultura de horas extras, em que há o sistema ‘996’. Nesse formato, chega-se ao horário extremo das 9h às 21h, 6 dias por semana, o que somados dá 72 horas/semana.
Além disso, eles têm férias de uma semana por ano e não remuneradas, não recebem décimo terceiro e não têm Fundo de Garantia por Tempo de Serviço como o brasileiro. O trabalho é de servidão, uma escravidão moderna, às vezes. Contudo, em poucas ocasiões a situação é comentada nitidamente. Enquanto isso no Brasil, há uma série de encargos trabalhistas regulados pela CLT, que oneram bastante, especialmente as médias e pequenas empresas, mas são as regras as quais estamos inseridos e o eventual alívio na folha traria maior competitividade, mas este é assunto para outro artigo.
Estas agendas do governo pró-China têm criado mais dificuldades para a indústria nacional. De fato, têm complicado muita gente, porque o produto chega no porto, muito barato, “subsidiado”, e produzido sob uma legislação trabalhista distinta daquele país. Sendo assim, há uma concorrência de maneira desigual e desleal com as empresas brasileiras, principalmente com relação à legislação trabalhista e aos encargos de impostos que inexistem nas regras de trabalho do modelo chinês. Já são notórias as informações que circulavam na mídia além de exploração de mão de obra, a falta de normatização (ou que não são explícitas) e muitas vezes há o braço do governo daquele país por trás, favorecendo empresas na operação com a oferta de subsídios.
O fato é que em boa parte das atividades, as marcas chinesas têm entrado nos mercados e desequilibram o jogo, porque usam práticas desleais e muitas vezes prometem tecnologias que não entregam. Há situações que geram dificuldades mais amplas ainda, porque vendem e desaparecem.
Hoje existe um pensamento dentro de nosso governo federal que tem grande alinhamento a esse regime chinês. Afora isso, houve o recente embate com os Estados Unidos, que empurrou infelizmente cada vez mais o Brasil para o colo da China. Mas inúmeras empresas nacionais também apreciam esse cenário pró China, porque elas se associaram a esse ‘projeto’ e hoje são uma ponte de entrada do produto chinês.
Entretanto, um grupo expressivo de empresas que não quer ser representante deles tenta preservar a indústria nacional. Não é uma questão de puritanismo. A escolha é por uma filosofia de a empresa brasileira defender o produto nacional e também ter fornecedores nacionais. Mas a verdade é que há inúmeras marcas do mercado B2B em geral que estão sendo beneficiadas, assim como indústrias multinacionais por essa conjuntura singular.
Mas ao nosso ver, isso é muito ruim para a indústria nacional. Não é uma onda que pretendemos surfar nela, porque há um entendimento que isso é prejudicial no médio a longo prazo a indústria nacional. Percebemos uma situação parecida durante a pandemia. A China é um regime totalitário, se o governo der uma única ordem, pode fechar tudo, acabar com um produto e o comprador fica sem nada. Foi exatamente o que aconteceu na pandemia. Havia falta de parafusos a embalagens. Porque quase tudo em larga escala era trazido daquele país.
Diversos colegas empresários estão olhando apenas o hoje, ou seja, há uma preponderância para uma visão míope simplista e imediatista. Infelizmente, não se observa e se analisa o médio e longo prazo. Acreditam que não há o que escolher e só existe uma alternativa para o momento. No entanto, sempre há aqueles que acreditam em outras soluções de maior tempo de maturação e preferem se manter como uma indústria genuinamente nacional, se recusando a se beneficiar momentaneamente, porque no futuro o novo cenário pode prejudicar a todos indistintamente.
Quando os engenheiros implementam um projeto no Brasil executam um esforço enorme para suprir todos os detalhes para as demandas e características do nosso País. Precisamos pensar em outros aspectos paralelos que são importantes também para o Brasil, como a contribuição ao desenvolvimento econômico nacional, o aproveitamento e investimento na mão de obra brasileira disponível, a possibilidade de manutenção preditiva e preventiva serem prestadas aqui plenamente e sob medida, e até o aspecto cultural e do desenvolvimento do País, que deveria ser uma política de Estado, afinal, se continuarmos com esta política de privilegiar bens importados da China, empresas como Vale, Embraer e Ambev serão cada vez mais raras de aparecer ou simplesmente não irão mais aparecer. Boa parte da tecnologia nacional é fruto da própria engenharia brasileira, do esforço do profissional brasileiro, e que tem gerado empregos para brasileiros. Ou será que alguém prefere privilegiar a geração de emprego na China?
Do ponto de vista tecnológico temos diferenciais que precisamos enaltecer e que não foram ainda difundidos devidamente. É extremamente importante, entre outros aspectos, interpretarmos a satisfação das experiências de nossos clientes e parceiros. O que foi entregue e se o resultado fez realmente sentido em termos de diferenciais, de pós-venda, por exemplo. Assim os fabricantes se distinguem ou se individualizam.
Muitos fornecedores brasileiros da indústria brasileira, se comunicam bastante com seus clientes para entender aquilo que está sendo produzido e principalmente se está alinhado com o que o comprador precisa exatamente, inclusive pensando em detalhes que às vezes nenhuma empresa estrangeira entregaria hoje.
Necessitamos sempre identificar certos detalhes para os projetos dos clientes. E é preciso enfatizar que nossa própria satisfação com uma solução é também percebida como diferencial. Mesmo com tanta tecnologia, os contatos pessoais são imprescindíveis e é o que diferencia de concorrentes internacionais.
Hoje em dia, marcas da China nem sempre realizam uma manutenção e assistência técnica apropriadas. Às vezes, é preciso gastar mais com materiais e componentes de reposição. O fato é que o alto nível tecnológico resulta da boa relação custo-benefício e baixos investimentos na manutenção.
Não podemos, portanto, abrir o mercado completamente e sem limites para que qualquer um venha até aqui com qualquer produto, tecnologia ou solução e abrace o que tem disponível para suas vendas. A tecnologia nacional e seus produtos são muito mais alinhados com as necessidades e características do País. Esse é meu ponto de vista.
Marcelo Mendes é gerente geral da KRJ Conexões. É economista e executivo de marketing e vendas do setor eletroeletrônico há mais de 15 anos, e com atuação em vários mercados internacionais.
Sobre a KRJ
A KRJ foi criada com o DNA da inovação, tendo como missão oferecer soluções diferenciadas, que reúnam produtos, acessórios, ferramentas dedicadas, forte assistência técnica e treinamento operacional de campo, visando à melhoria dos sistemas de conexões elétricas, nos aspectos técnicos e econômicos a eles relacionados, para atendimento das necessidades do mercado. Site: https://krj.com.br/

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