No Brasil do pequeno e do micro empreendedor, fim da escala 6 X 1 só é possível com desoneração tributária
Marco Vinholi*
O debate sobre o eventual fim da escala 6x1 no Brasil precisa ser conduzido com serenidade, com dados concretos e com responsabilidade com a realidade econômica brasileira. E, de forma alguma, o Congresso Nacional deve se esquecer dos pequenos e dos micro empreendedores do País nesta esteira de discussão - e nem se esquivar do impacto que uma decisão desta magnitude pode ter na informalidade e no desemprego de maneira geral.
Empreender no Brasil não é só fonte de sobrevivência; não é só investir num nicho, ou apostar naquilo que se faz de melhor. O dono, muitas vezes, é quem opera tudo - da Contabilidade às compras - e conta, quando muito, sobretudo no começo, com um ou nenhum colaborador.
Em setores como Comércio, Alimentação, Serviços e Turismo, a dinâmica da demanda não se ajusta ao calendário tradicional. A escala 6x1, nesses casos, não é sinônimo de precarização. Pelo contrário: é instrumento de organização produtiva. Desta forma, sua extinção, sem uma transição estruturada e sem considerar as diferenças setoriais, pode significar aumento de custos, redução de competitividade e, inevitavelmente, menos vagas formais no Brasil. Há, desta forma, preocupação legítima e que não deve ser ignorada pelo segmento e nem pelo Parlamento. O detalhe no todo faz muita diferença.
Defender os empreendedores não é relativizar direitos trabalhistas - é compreender que emprego só existe onde há empresa sustentável. Penso que, a matéria em tela deveria ser objeto de deliberação dos Sindicatos Patronais e Laborais de cada setor, por meio das respectivas Convenções Coletivas de Trabalho (CCTs), diante das especificidades de cada segmento.
Importante destacar, ainda, que, apenas os segmentos do Turismo, do Comércio e de Serviços seriam impactados com o fim da escala 6 X 1 no Brasil, já que o Mercado Financeiro e a Indústria não adotam este tipo de jornada em suas operações. É preciso refletir sobre o quanto uma medida como esta faria portas se fecharem. Sem respiro financeiro para manter uma escala laboral menor, o empreendedor quebra. Simples, assim!
Uma mudança abrupta na jornada, ao meu ver, sem compensações estruturais (como isenção ou redução de tributos, só para citar uma possibilidade) pode desorganizar cadeias inteiras e favorecer (sublinho, insisto) a informalidade e o desemprego. Que incentivo, pergunto, será concedido ao pequeno negócio?
O Brasil precisa, sim, avançar na agenda da produtividade - da simplificação tributária à modernização responsável das relações de trabalho. A discussão, no entanto, não pode ser movida por politização, por slogans, mas, sim, por impacto real sobre milhões de micro e de pequenos negócios que operam com margens apertadas e alto custo regulatório.
Se queremos mais empregos, melhores salários e desenvolvimento econômico, precisamos fortalecer quem empreende no País. O equilíbrio é o caminho: proteger o trabalhador, sim — mas, também, garantir as condições para que o empreendedor continue abrindo portas todos os dias e não fortalecendo estáticas de mortalidade empresarial.
*Marco Vinholi é diretor-técnico do Sebrae no estado de São Paulo; membro do Conselho de Inovação da Universidade de São Paulo (USP) e do Conselho Regional do Serviço Social da Indústria (Sesi); mestre em Gestão Pública, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV); mestre em Empreendedorismo, pela USP; pós-graduado em Liderança e Inovação, pela FGV; especialista em Comunicação, pela Harvard University (Estados Unidos); graduado em Administração de Empresas, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo; e organizador e autor dos livros “O Novo Municipalismo” (2021) e “Nova Regionalização de São Paulo - Governança, Participação e Financiamento”; foi deputado estadual e secretário de Estado de Desenvolvimento Regional do Governo de São Paulo*
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