A rica biodiversidade da Amazônia é uma fonte de recursos estratégicos não apenas para novos produtos biotecnológicos de ponta, mas também para insumos agrícolas e farmacêuticos.
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Uma nova espécie de fungo amazônico, descoberta por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental, demonstrou potencial para o desenvolvimento de bioprodutos para uso na agricultura. O fungo, denominado Trichoderma agriamazonicum, combina capacidades de controle biológico com aplicações biotecnológicas, pois produz compostos naturais únicos, ainda não descritos na literatura científica. Isso confere à espécie uma dupla função: proteger as plantas e promover seu crescimento.
O nome Trichoderma agriamazonicum reflete tanto a origem amazônica quanto o potencial agrícola da nova espécie. O fungo foi identificado a partir de amostras coletadas de uma espécie arbórea nativa da Amazônia e pertence ao gênero Trichoderma , amplamente estudado por seu papel no controle biológico de doenças e pragas agrícolas. A nova espécie difere das demais por apresentar características genéticas próprias, que ampliam as possibilidades de uso em sistemas de produção sustentáveis.
Trichoderma agriamazonicum foi identificado em 2023 pelos pesquisadores Thiago Fernandes Sousa e Gilvan Ferreira da Silva (foto à esquerda) e tem sido objeto de pesquisa desde então. Na época, Sousa era doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas ( UFAM ) e bolsista da Embrapa Amazônia Ocidental, sob a orientação de Silva.
Estudos mais específicos conduzidos no Laboratório de Inovação em Microbiologia da Embrapa na Amazônia (AmazonMicro-Biotech) confirmaram o desempenho promissor do microrganismo, incluindo sua aplicabilidade na medicina. Essa característica provém dos peptídeos (pequenas cadeias de aminoácidos) encontrados nessa espécie, que demonstraram ação antimicrobiana mais eficaz do que a de antibióticos comerciais.
Testes com a nova espécie também demonstraram eficiência em laboratório ( in vitro ) no controle de nove espécies diferentes de fitopatógenos, que são agentes causadores de doenças nas folhas de diversas culturas.
Segundo Sousa, o isolado fúngico foi extensivamente caracterizado durante sua tese de doutorado, defendida em 2025, e os dados morfológicos e filogenéticos corroboraram a sua classificação como uma nova espécie fúngica. “Os resultados mostram que ele pode inibir o crescimento micelial de fitopatógenos, tanto por meio do micoparasitismo quanto pela produção de compostos orgânicos voláteis (COVs), com ênfase na inibição de Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp. (que atacam culturas como soja e frutas, por exemplo)”, explica.
Foto: Maria José Tupionambá
Compostos e ação sem precedentes contra superbactérias
Um dos destaques da pesquisa com T. agriamazonicum reside na análise genômica de seus agrupamentos de genes biossintéticos (BGCs), que são conjuntos de genes que funcionam como uma “fábrica química” codificada para defesa e interação com o ambiente.
Este trabalho possibilitou a predição e a síntese de peptaibóis (peptídeos não ribossômicos) com atividade antimicrobiana sem precedentes. A abordagem empregou o algoritmo PARAS para predizer com precisão a sequência de aminoácidos dos peptaibóis mesmo antes de seu isolamento.
Essa metodologia, seguida da síntese química dos compostos previstos, foi denominada syn-BNP (Produto Natural Bioinformático Sintético) e representa uma nova fronteira na descoberta de produtos naturais. Ela acelera significativamente o processo de identificação de moléculas bioativas, eliminando a necessidade de cultivo extensivo e purificação química tradicional.
Os resultados indicam que os peptaibóis têm potencial biotecnológico como agentes antimicrobianos, com eficácia comparável ou até superior à dos antibióticos comerciais.
Em ensaios controlados, um peptaibol de 18 aminoácidos, sintetizado quimicamente com base em previsões do genoma de T. agriamazonicum, mostrou-se ativo contra Streptococcus sp. e Klebsiella pneumoniae , bactérias que causam infecções como a pneumonia.
Além de sua aplicação médica, o peptaibol de 18 aminoácidos também demonstrou eficácia antifúngica no biocontrole agrícola, inibindo o crescimento do fitopatógeno fúngico Pseudopestalotiopsis sp., agente causador da mancha foliar em árvores de guaraná.
Fotos: ScienceDirect
Potencial para o crescimento das plantas
Em relação à promoção do crescimento vegetal, uma cepa de T. agriamazonicum destacou-se pela sua capacidade de sintetizar hormônios vegetais, conhecidos como fitormônios. Em testes in vitro , o isolado produziu 60,53 microgramas por mililitro (µg/mL) de ácido indolacético (AIA), um fitormônio essencial que estimula o desenvolvimento das plantas. Tal resultado o colocou no grupo de isolados com a maior produção de AIA.
Contudo, pesquisas em estufa indicaram que, apesar da alta produção de AIA, o desempenho dessa cepa de T. agriamazonicum na promoção do crescimento do pimentão não superou significativamente o controle negativo no experimento. Isso sugere que múltiplos mecanismos estão envolvidos na promoção do crescimento vegetal e que a produção de AIA, por si só, não tem relação direta com a eficiência do crescimento vegetal em campo. A importância de T. agriamazonicum reside, portanto, em seu vasto potencial como fonte de moléculas bioativas específicas.
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Síglia Souza (Mtb 66/AM)
Embrapa Amazônia Ocidental
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