*José Renato Nalini
A boataria, inevitavelmente, sai de
ambientes muito próximos aos que são alvo dela. Encontrar assunto para
comprometer a memória de alguém é uma especialidade dos íntimos. É algo
universal, de que é exemplo o livro de Georges Normandy, “Vie anecdotique et
pittoresque de Maupassant”. Dele consta o boato malévolo de que Guy de
Maupassant seria filho de Gustave Flaubert. Isso porque Laura de Maupassant se
separara do marido e Flaubert era o amigo muito próximo a velar pela esposa
abandonada.
Mas aqui no Brasil é difícil escapar
a um boato. Dentro da Academia Brasileira de Letras, encontrou-se estreita
semelhança entre Mário de Alencar, filho de José de Alencar, e o próprio
criador do Silogeu, Machado de Assis. Os imortais comentavam entre si: “Compara
aquelas duas testas...aquelas duas cabeça...aquele cabelo ondulado em um e
outro. Examina tudo isso sem esquecer a amizade “filial” que uniu Mário ao
Machado até à hora da morte...”
Para quem observasse, havia,
realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. Estranha,
também, aquela afeição paternal de Machado, tão desconfiado nas suas amizades
e, no entanto, tão ligado a Mário de Alencar, cuja presença, na velhice, não
dispensava um só dia?
Para completar o quadro de
coincidências, Mário de Alencar era epilético. Seu pretenso pai, José de
Alencar, jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu com essa moléstia.
Há quem diga que “Dom Casmurro” é uma história verdadeira. Do amigo que trai o
amigo, aquele filho que fica de amores clandestinos, não seriam páginas de uma
autobiografia?
Hoje até seria possível realizar a
prova, com a IA e o exame de DNA. Mas o que mudaria a História, qual seria a
consequência concreta dessa descoberta, senão alimentar a famélica volúpia de
quem quer explorar as intimidades da vida alheia?
*José
Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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