Diemerson Freitas da Cruz
Seminarista da Diocese de Jales – Ano de
Síntese Pastoral
A
Quaresma sempre chega como um convite silencioso, mas profundamente exigente: “Convertei-vos
e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Não se trata apenas de cumprir práticas
religiosas, mas de permitir que Deus toque as áreas mais concretas da nossa
vida. É um tempo de voltar para casa, para a casa do Pai e, ao mesmo tempo, de
abrir os olhos para a realidade dos irmãos e irmãs que não têm casa alguma.
Todos
os anos, a Igreja Católica no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil, propõe a Campanha da Fraternidade que se inicia no tempo
quaresmal, e, neste ano, pela segunda vez, propôs o tema “Fraternidade e
Moradia” e o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A escolha do tema não
é casual. Se Deus armou Sua tenda no meio de nós, se o Verbo se fez carne e
habitou entre nós, então a moradia deixa de ser apenas uma questão social e
passa a ser também uma questão profundamente espiritual. Onde alguém não tem
teto, ali também há uma ferida na fraternidade.
A
espiritualidade quaresmal, tradicionalmente sustentada pela oração, pelo jejum
e pela caridade, ganha um rosto muito concreto neste contexto. A oração nos faz
entrar na intimidade com Deus, mas também nos ensina a enxergar com os olhos
d’Ele. O jejum não é só privação de alimento, mas libertação do egoísmo que nos
impede de perceber a dor alheia. A caridade, por sua vez, não é simples gesto
assistencial, mas partilha que nasce do reconhecimento de que tudo é dom.
Milhões
de famílias vivem hoje em condições precárias, sem moradia digna, em situações
que ferem a dignidade humana. A Campanha da Fraternidade nos recorda que conversão
não é apenas mudança interior, mas transformação de mentalidade e compromisso
com a justiça. Não podemos celebrar a Páscoa do Ressuscitado ignorando o clamor
dos que vivem à margem.
Nas
recentes reflexões quaresmais, o Papa Leão XIV tem insistido que a quaresma é
tempo de “escutar e jejuar”. Escutar a Palavra de Deus, mas também escutar os
pobres. Escutar o Evangelho, mas também escutar o grito silencioso de quem
sofre. O Papa recorda que o verdadeiro jejum é aquele que purifica o coração,
desarma a violência das palavras, combate a indiferença e nos torna mais
sensíveis à presença de Cristo nos irmãos.
Essa
escuta transforma. Quando nos deixamos tocar pela realidade, percebemos que a
conversão quaresmal não pode ficar restrita ao âmbito individual. Ela precisa
alcançar nossas escolhas, nossos posicionamentos e nossas atitudes sociais. O
cristão é chamado a viver uma fé encarnada, que constrói pontes e não muros,
promove dignidade e defende o direito fundamental à moradia.
Viver
a espiritualidade de conversão quaresmal à luz da Campanha da Fraternidade 2026
significa permitir que o coração seja remodelado por Deus e que as mãos se
tornem instrumentos de fraternidade. Significa rezar mais, sim, mas também agir
mais. Significa jejuar, mas também partilhar. Significa buscar a própria
santidade, mas sem se esquecer de que a santidade passa pela justiça e pelo
amor concreto.
A
quaresma, portanto, não é apenas um caminho para a Páscoa futura, mas um
processo de reconstrução da nossa “casa interior” e da casa comum onde todos
possam viver com dignidade. Quando abrimos espaço para Deus morar em nós,
aprendemos também a lutar para que nenhum irmão fique sem moradia. É assim que
a conversão se torna verdadeira: quando transforma o coração e, ao mesmo tempo,
transforma o mundo.
Estrela d’Oeste, 24 de fevereiro de 2026

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