ACNUR busca apoio para soluções após o retorno de 5,4 milhões de afegãos desde o final de 2023

 

Este é um resumo do que foi dito por Arafat Jamal, Representante do ACNUR no Afeganistão - a quem o texto citado pode ser atribuído - na coletiva de imprensa de hoje no Palácio das Nações, em Genebra.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) continua monitorando um número significativo de afegãos retornando ou sendo forçados a retornar de países vizinhos em circunstâncias extremamente difíceis.

Apenas em 2026, quase 150 mil afegãos retornaram do Irã e do Paquistão. Essas chegadas se somam a retornos já sem precedentes – 2,9 milhões de pessoas em 2025 –, elevando o total para cerca de 5,4 milhões desde outubro de 2023.

A velocidade e a escala desses retornos aprofundaram a crise no Afeganistão, que continua a enfrentar uma situação humanitária e de direitos humanos em deterioração, particularmente para mulheres e meninas, com uma economia frágil e desastres naturais recorrentes. De acordo com um relatório recente do Banco Mundial (em inglês), o rápido crescimento populacional impulsionado pelos retornos levou a uma queda de 4% no PIB per capita em 2025.

O elevado número de retornos já registrado este ano é preocupante, dada a severidade do inverno, com temperaturas congelantes e fortes nevascas em grande parte do país.

Uma recente pesquisa do ACNUR (publicada em dezembro de 2025, em inglês) com retornados destaca a dimensão dos desafios que enfrentam. Apenas pouco mais da metade relatou ter conseguido encontrar algum tipo de trabalho, mesmo que informal. Para as mulheres, esse número cai para menos de um quarto. Mais da metade das famílias de retornados relata não possuir documentos civis – por exemplo, carteiras de identidade para comprovar quem são ou de onde vêm – e mais de 90% vivem com menos de US$ 5 por dia.

Estamos profundamente preocupados com a sustentabilidade desses retornos. Embora 5% dos retornados entrevistados afirmem que pretendem deixar o Afeganistão novamente, mais de 10% conhecem um parente ou membro da comunidade que já partiu desde que retornou. Essas decisões não são motivadas pelo desejo de partir, mas pela realidade de que muitos não conseguem reconstruir uma vida viável e digna. Ainda assim, há focos de esperança.

Observamos que o perfil socioeconômico dos retornados está evoluindo, com aqueles que retornaram em 2025 apresentando, em geral, níveis mais elevados de escolaridade e participação no mercado de trabalho. Com oportunidades de subsistência sustentáveis, os retornados podem aplicar suas habilidades e experiência e contribuir para a estabilização.

Este ano, nosso foco é apoiar a reintegração dos retornados. Temos o acesso, a presença e a experiência adquirida ao longo das últimas quatro décadas no Afeganistão para fornecer a assistência que as comunidades dizem ser mais necessária, incluindo serviços de proteção, moradia e apoio à subsistência, especialmente para as mulheres.

Juntamente com outras agências e parceiros da ONU, o ACNUR segue monitorando de perto a situação regional, onde o espaço para asilo continua a diminuir e as vias de deslocamento regulamentadas se estreitam. Os afegãos sentem-se cada vez mais compelidos a empreender jornadas perigosas para outros países.

Ao mesmo tempo em que permanecemos preparados para responder aos retornados para o Afeganistão, continuamos a instar os Estados a manterem o acesso ao asilo, a protegerem e auxiliarem os refugiados afegãos e a garantirem que ninguém seja devolvido a um país onde seus direitos e liberdades estejam em risco.

Diante dessa grave situação humanitária e do rápido crescimento populacional, é urgente o apoio adicional em 2026 para ampliar a assistência e investir na reintegração, permitindo que as pessoas reconstruam suas vidas com dignidade, esperança e estabilidade. Para 2026, o ACNUR precisa de US$ 216 milhões para apoiar pessoas deslocadas e retornadas em todo o Afeganistão. Nossa resposta está atualmente financiada em apenas 8%.

Este é um momento crucial para agir enquanto ainda há oportunidade de encontrar soluções de longo prazo e resolver o deslocamento de afegãos retornados à sua terra natal, muitas vezes após anos ou décadas de exílio.

Brasil tem programa voltado para a acolhida e integração de refugiados afegãos

Lançado em setembro de 2024 pela Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o programa de reassentamento, admissão e acolhida humanitária por via complementar e patrocínio comunitário (PRVC-PC) para nacionais do Afeganistão é um marco internacional do compartilhamento de responsabilidades, sendo um programa inovador implementado pelo governo brasileiro.

O patrocínio comunitário é uma maneira concreta de organizações da sociedade civil e comunidades apoiarem o acolhimento e a integração de pessoas refugiadas e com necessidade de proteção internacional, ajudando-os a se adaptarem à vida em um novo país e oferecendo suporte comunitário, financeiro, de inclusão socioeconômica, entre outros, por um período de determinado de tempo

Com o objetivo proporcionar proteção, acolhimento digno e facilitar a integração de pessoas afegãs na sociedade brasileira sem a necessidade de recursos públicos, o programa realiza o ensino da língua portuguesa, assistência jurídica, aconselhamento sobre o mercado de trabalho, promoção de oportunidades de emprego formal, revalidação de diplomas, prevenção da violência baseada em gênero e apoio à saúde mental e psicossocial. Nas comunidades de acolhida, serão promovidas atividades culturais e de convivência pacífica.

Mais informações sobre o PRVC-PC estão disponíveis na página dedicada do MJSP e informações para as pessoas afegãs sobre o programa estão disponíveis na Plataforma Ajuda do ACNUR.


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