Mais do que um acordo: o desafio da indústria farmacêutica diante da integração Mercosul-União Europeia





Por Eduardo Rocha Bravim, especialista em biotecnologia farmacêutica, instrumentação analítica, controle de qualidade e supply chain científico com atuação internacional

Quando se fala na integração entre Mercosul e União Europeia, o debate costuma ficar preso ao campo político. Do ponto de vista de quem vive a indústria farmacêutica no dia a dia, essa leitura é insuficiente. O acordo não muda a realidade por decreto, ele muda o ambiente em que as decisões passam a ser tomadas.

Na prática, acordos comerciais não tornam as empresas mais competitivas. Eles apenas retiram camadas de proteção. Quem já opera com processos bem estruturados, controle real e previsibilidade tende a perceber oportunidades. Quem ainda depende de improviso ou de margens apertadas começa a sentir a pressão mais cedo.  

Essa diferença fica muito clara quando se acompanha, de perto, decisões de investimento sendo adiadas ou revistas não por falta de mercado, mas por limitações internas que antes passavam despercebidas.

O acesso facilitado a insumos, equipamentos e tecnologias é um bom exemplo. Para algumas fábricas no Brasil, isso pode significar ganho concreto de eficiência. Para outras, pode escancarar atrasos acumulados ao longo do tempo. Tecnologia disponível não resolve falta de preparo, apenas evidência quem sabe usá-la e quem ainda não chegou lá.

Existe também uma diferença importante de maturidade industrial que não pode ser ignorada. Concorrer com produtos oriundos de ambientes altamente estruturados exige mais do que discutir preço. Exige disciplina operacional, dados confiáveis, rastreabilidade e uma cultura de qualidade que funcione na rotina, não apenas em auditorias.

Outro ponto pouco considerado é o tempo. A indústria farmacêutica não se ajusta rapidamente. Qualificar fornecedores, validar processos, treinar pessoas e consolidar sistemas leva anos. Quando a abertura comercial avança mais rápido do que a capacidade de adaptação, o risco não é concorrência, é dependência.

Por isso, o maior desafio não está fora, está dentro. A integração expõe o quanto cada empresa conhece seus próprios processos, seus custos reais, suas fragilidades e seus limites. Abertura sem estratégia cobra um preço alto. Abertura acompanhada de investimento, governança e decisões consistentes pode fortalecer quem já vinha fazendo o trabalho certo.

Em discussões operacionais, esse desalinhamento costuma aparecer de forma simples: processos que funcionam no papel, mas não se sustentam na rotina.

No fim, a integração Mercosul–União Europeia funciona menos como um benefício automático e mais como um teste de realidade. Ela não define vencedores e perdedores. Apenas revela quem está pronto para competir em um ambiente mais exigente, e quem ainda precisa evoluir antes de dar esse passo.


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