Tradição agropecuária da Unesp em Jaboticabal reflete na qualidade da formação dos estudantes e no impacto das pesquisas, que melhoram a produção no campo com inovação e sustentabilidade
Foto de Eliete Soares / ACI Unesp
Aos 59 anos, a Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), localizada no município de Jaboticabal, ostenta um orgulhoso histórico com projetos de pesquisa de sucesso, inovações que colaboram ativamente para o desenvolvimento de uma agropecuária e veterinária de nível internacional, além da formação de milhares de egressos que se tornaram importantes cientistas ou profissionais de destaque no mercado.
Situada em uma região com forte tradição agropecuária, a FCAV oferece cursos de graduação voltados principalmente para esse setor da economia, como Engenharia Agronômica, Medicina Veterinária e Zootecnia, além de Ciências Biológicas (nas modalidades Bacharelado e Licenciatura) e Administração.
Um dos pontos fortes da atuação da FCAV é a pesquisa científica, responsável por muitas inovações que hoje em dia podem ser encontradas no prato de muitos brasileiros. “A maioria da goiaba produzida hoje no Brasil é da espécie paluma, que foi desenvolvida por um professor aqui da Unesp em Jaboticabal”, lembra o diretor da FCAV, professor Humberto Tonhati.
O docente explica que a paluma foi criada em 1984 pelo professor Fernando Mendes como um resultado da polinização aberta de duas variedades de goiaba, a rubi e a supreme, por meio de um programa de melhoramento genético. Além da tradicional goiaba, Tonhati cita ainda outras inovações de impacto que foram desenvolvidas dentro do câmpus da Unesp.
“Se hoje temos oferta de peixes durante a piracema, como o pacu e o tambaqui, é porque houve muita pesquisa para viabilizar a criação dessas espécies em cativeiro, com trabalhos focando a reprodução induzida e o manejo, por exemplo”, cita o diretor da unidade, fazendo referência ao trabalho desenvolvido no Centro de Aquicultura da Unesp do câmpus de Jaboticabal. “Aqui em Jaboticabal foi criada também a microaspersão para pulverização, usado para a irrigação, e técnicas para o controle biológico, um recurso que ajuda a reduzir muito a aplicação de inseticida e pesticida, impactando menos o meio ambiente. Muito do que se utiliza na agricultura nacional vem daqui.”
O professor Tonhati lembra que a FCAV também colaborou com trabalhos de impacto no campo da Medicina Veterinária. “O primeiro clone animal de bovino feito nas Américas a partir de uma célula adulta foi feito aqui, pelo professor Joaquim Mansano Garcia”, diz. A inovação, semelhante à clonagem pioneira da ovelha Dolly feita no final dos anos 1990, ocorreu em 2002, depois de anos de estudo e com o envolvimento de dezenas de pesquisadores. A bezerra ganhou o nome de Penta, em homenagem à conquista brasileira da Copa do Mundo de futebol daquele ano.
A qualidade da produção científica da FCAV pode ser observada pela quantidade de recursos captados externamente pelos docentes, como em agências de fomento à pesquisa. Apenas na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das principais do Brasil, 63 dos 153 docentes vinculados à FCAV são bolsistas de produtividade em pesquisa da Fapesp.
Neste sentido, um caso de sucesso da unidade da Unesp em Jaboticabal é a Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Extensão (Funep), criada em 1979 por um grupo de 40 docentes da FCAV. A fundação ligada à unidade universitária funciona como uma ponte entre as empresas e os projetos coordenados pelos professores, oferecendo apoio financeiro para ações que envolvem pesquisa, ensino ou extensão.
“A Funep atua como uma ponte entre a comunidade, o empresário e a academia. Eu vejo essa atuação como uma ação de extensão”, argumenta Tonhati. “A faculdade tem grupos de pesquisadores extremamente competentes associados às empresas, sempre com o propósito de aumentar a produtividade do campo ao mesmo tempo em que protege nossos recursos ambientais”, explica.
Fazenda de pesquisa
Outro exemplo de infraestrutura que faz diferença no dia a dia dos universitários da FCAV é a Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão (FEPE), onde a pesquisa desenvolvida por docentes e alunos dialoga diretamente com projetos de extensão universitária. Ao todo, a fazenda compreende 816,3 hectares, destinados a culturas anuais, pastagens, experimentos de campo, parques, frutíferas e mata ciliar.
“A fazenda recebe anualmente o Dia de Campo, evento em que nós convidamos as empresas para apresentar as tecnologias que elas desenvolvem e aproximá-las dos agricultores da região”, explica o professor Gustavo Vitti Moro, atual supervisor da FEPE. “Temos assentamentos próximos da universidade e a nossa ideia é que eles conheçam as tecnologias disponíveis e possam incorporá-las às suas áreas de produção. Isso vale para os pequenos, médios e grandes agricultores”, diz.
Moro considera que a FCAV tem um papel importante no combate à insegurança alimentar, uma vez que praticamente todas as pesquisas da unidade têm como objetivo alcançar maior eficiência no sistema produtivo, e de forma sustentável. Ou seja, impactando o mínimo possível o meio ambiente.
“Eu enxergo que 100% das pesquisas desenvolvidas pela Agronomia têm o intuito de garantir alimentos com menor preço, maior qualidade e menor impacto ambiental, ou seja, maior sustentabilidade. Isso é feito, por exemplo, reduzindo o ataque de pragas, cultivando de forma mais eficiente ou desenvolvendo insumos biológicos que aumentam a produtividade”, pontua.
Segundo Moro, essa característica tem impacto não apenas nacionalmente, mas também internacionalmente, visto que a segurança alimentar é hoje uma preocupação global. De fato, a FCAV está inserida no cenário mundial. E não apenas no impacto da pesquisa, mas também na qualidade de seus pesquisadores. A unidade comemorou, recentemente, a presença de duas cientistas ligadas ao câmpus de Jaboticabal da Unesp na lista de mulheres mais influentes do agronegócio, elaborada pela revista Forbes.
Uma é a pesquisadora Cláudia Demétrio, head de Desenvolvimento de Sementes Brasil na multinacional Syngenta e doutora em melhoramento genético pela Unesp. A segunda é a professora Maria Célia Portella, pós-doutora em aquicultura, docente da Unesp e integrante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), instância em que atua para a elaboração e o desenvolvimento das Diretrizes para a Aquicultura Sustentável, um conjunto de medidas que visa garantir que a produção de alimentos aquáticos seja ambientalmente responsável, socialmente justa e economicamente viável.
Hospital veterinário
Outra estrutura que se destaca no câmpus da Unesp em Jaboticabal é o Hospital Veterinário “Governador Laudo Natel”. Criado em 1992, o hospital é reconhecido pelos projetos que chegam até a comunidade, como o trabalho dos residentes em escolas, onde fazem apresentações e tiram dúvidas sobre doenças de caráter zoonótico, como leishmaniose e febre amarela.
Além disso, o hospital também recebe pacientes de diversas partes do Brasil. “Até pouco tempo atrás éramos um hospital isolado aqui na região, mas hoje recebemos pacientes do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso”, destaca o professor Paulo Aléscio Canola, atual diretor do HV.
Outra atividade importante realizada pelo centro é o atendimento a animais silvestres e domésticos que são vítimas de maus-tratos ou que sofreram algum acidente.
“A Polícia Ambiental costuma trazer animais vítimas de atropelamentos ou queimados para atendimento, e uma parceria com o canil da Polícia Militar também disponibiliza atendimento aos cães que apresentem algum problema ou doença", diz Canola. O professor explica que no HV também são atendidas organizações não governamentais (ONG) a preços mais acessíveis.
História
A FCAV inicialmente era a Faculdade de Medicina Veterinária e Agronomia de Jaboticabal. Em junho de 1966, teve início o curso de Agronomia. Cinco anos depois, vieram Medicina Veterinária e Zootecnia. Hoje a unidade conta com os cursos de período noturno de Administração e Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura), ambos oriundos de uma necessidade das três graduações que foram os pilares da FCAV.
O curso de Administração se originou dentro de um departamento antigo que também abordava Economia, uma vez que para formar o veterinário, o agrônomo e o zootecnista também era necessário ensinar ao profissional como dirigir sua fazenda ou clínica. A partir desse histórico, a ideia de oferecer um curso de Administração foi expandir a atuação da instituição para uma nova área do conhecimento, ainda guardando relação com o agronegócio.
“Já o curso de Ciências Biológicas foi criado pelo governador (hoje vice-presidente da República) Geraldo Alckmin para expandir as vagas da universidade por meio de cursos noturnos que pudessem atender acadêmicos que estavam trabalhando durante o dia e não tinham condições de acessar a universidade pública”, lembra Tonhati.
Caminhar pelo câmpus da Unesp em Jaboticabal é como fazer uma viagem no tempo, mais precisamente para o início do século 20, época em que foram construídos alguns de seus prédios, que além de um valor histórico também remetem à vida no campo.
Uma das construções mais tradicionais é o prédio da diretoria, construído em 1910 para abrigar um patronato --espécie de colégio em que os alunos estudavam e moravam. No térreo, ficavam as salas de aula e a administração e, na parte de cima, os alojamentos. O sótão, onde hoje funciona um museu, era a lavanderia. Nos anos 1920, começou a funcionar o colégio agrícola, voltado para alunos do ensino médio, que ainda existe dentro da faculdade, e em 1966 a faculdade teve início --o colégio agrícola, já centenário, é a instância letiva mais antiga que hoje integra a Unesp.
A presença de prédios e estruturas centenárias no câmpus de Jaboticabal remete a uma instituição que preserva uma longa tradição dedicada ao desenvolvimento agropecuário do país e, ao mesmo tempo, não deixa de olhar para o futuro e investir em inovações que levam alimento para a mesa do brasileiro.
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