*José Renato Nalini
Os fenômenos climáticos extremos não
podem ser chamados “desastres naturais”. São consequência direta dos maus
tratos perpetrados pela humanidade contra a natureza. A ciência perdeu a voz de
tanto alertar os seres chamados “racionais”, de que a exploração dos recursos
postos à disposição da convivência deve ser cautelosa, prudente e baseada num
fato inevitável: as necessidades são crescentes, os insumos são finitos.
O resultado é traduzido em chuvas
inclementes, ondas de calor, rajadas violentas que derrubam árvores, causam deslizamentos
e desmoronamentos, ceifando vidas que poderiam ser preservadas, não fora a
incúria de grande parte dos responsáveis.
A maioria dos municípios não dispõe de
equipes e recursos materiais para proteger a população. Pesquisadores do Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – CEMADEN, nada
obstante o equívoco na denominação, enviaram questionários online para a defesa
civil dos 5570 municípios do Brasil. Chegaram respostas de 1993, dos quais 72%
não tinham orçamento para implementar políticas de prevenção a desastres e 67%
não possuíam veículos para trabalho de campo. Em 59% dos casos, as equipes eram
formadas por apenas uma ou duas pessoas, 56% não possuíam equipamentos de
proteção individual. 53% não contavam com celular com acesso à internet e 30% não
tinham computador.
Enquanto isso, como são os gastos
municipais com festividades que poderiam ser deixadas de lado enquanto não se
cuida da proteção da vida dos cidadãos? Tem sido noticiado que em cidades de
baixíssimo IDH, a verba destinada a festejos juninos supera aquela reservada
para a saúde, educação e saneamento básico.
Uma cidadania consciente se vê chamada a influenciar os gastos de sua cidade, para que o essencial venha a ser assistido com prioridade. Não há clima de festa quando seres humanos correm risco de vida por omissão, incúria, negligência ou ignorância de quem tem responsabilidade de cuidar de seu povo.
*José Renato Nalini é
Reitor da UNIREGISTRAL, docente do Programa de Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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