*José Renato Nalini
Há exatamente cem anos, em 1925, ao
ser entrevistado por um jornal no Rio de Janeiro, Coelho Neto sintetizou as
suas lutas de escritor. Dia e noite a escrever, molhando a pena no tinteiro e
produzindo suas obras. A escrever, sempre a escrever, para sustentar a família
e educar os filhos.
Ao ser indagado sobre quantos
volumes já havia publicado até então, ele, acanhado e constrangido, após um
momento de hesitação respondeu:
- “102!”.
O repórter ficou espantado:
- “102? É verdade que, entre novelas
e contos, o senhor já escreveu mais de trezentos?”
- “Um pouco mais: 580”.
Todo esse magnífico acervo era
insuficiente para fazê-lo um pai de família financeiramente tranquilo.
Continuava a ser um homem pobre. Via-se obrigado a procurar editoras para
publicar seus livros e espalhar crônicas e contos pelos jornais, em busca de
alguns vinténs.
O repórter indaga, curioso:
- “A casa em que mora é sua?”.
- “Não. Habito-a há exatos vinte
anos, como inquilino”, respondeu Coelho Neto. E lembrou-se do jazigo de
família, onde já repousava seu filho Mano:
- “Casa própria, tenho-a no
cemitério: a que foi doada a meu filho. Não sou tão pobre assim: tenho pelo
menos onde cair morto!”
Essa frase, ou algo muito parecido,
era também repetida por Lygia Fagundes Telles, bi-acadêmica: da Academia
Brasileira e da Academia Paulista de Letras. Sempre brincava: - “Sou bi-imortal
porque não tenho onde cair morta!”. Consta que foi Olavo Bilac o primeiro a
fazer essa blague, que tem um pouco de verdade. Quem ganha dinheiro com livro
no Brasil? Um país que perde milhões de leitores a cada ano, engolidos pelas
redes antissociais em que prepondera a piada, o mau gosto, a chulice e a
bobagem.
Enquanto esta Pátria não se educar – e com qualidade e consistência – os talentos continuarão a passar fome, enquanto as imbecilidades prosseguirão em seu trajeto ascensional.
*José Renato Nalini é
Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e
Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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