A 22ª edição da Flip foi marcada por debates instigantes sobre o amor e as relações humanas, destacando o poliamor como tema central.



Repensar a monogamia é muito mais do que ampliar o número de parceiros; o pensamento poliamoroso é antes de tudo político
 

Para desmistificar o conceito do poliamor e aprofundar o entendimento das novas propostas para as relações afetivas, as especialistas Carol Tilkian e Brigitte Vasallo trazem holofote ao assunto

Carol Tilkian

Brigitte Vasallo
 

A 22ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) trouxe à tona discussões instigantes sobre temas contemporâneos, e um dos mais esperados foi o debate sobre o amor político, que contou com a presença de Geni Nuñez, psicóloga, escritora e ativista guarani; e Brigitte Vassalo escritora e pesquisadora espanhola, autora do 'O Desafio Poliamoroso'; duas referências no debate sobre o tema como parte da programação oficial do festival.
 

Na ocasião, a psicanalista e especialista em relacionamentos, Carol Tilkian participou de uma conversa exclusiva com a Brigitte Vasallo para aprofundar nos desafios da desconstrução do pensamento monogâmico. As especialistas trazem reflexões profundas sobre o amor, as relações humanas e a necessidade de repensar os mecanismos que moldam o modelo monogâmico predominante na sociedade.
 

Carol Tilkian abordou que: "para muitos, a discussão do poliamor ainda se restringe à não exclusividade sexual, ao aumento de parceiros e que esta lógica simplista evita com que nos aprofundemos em questionamentos mais importantes: Repensar a monogamia é repensar um amor baseado na posse, no controle, nos ciúmes, e no casal como prioridade absoluta vs. as outras relações afetivas". Esse foi o ponto de partida para a conversa.
 

Já para Brigitte Vasallo, "o desafio poli amoroso consiste antes de tudo em questionar uma lógica que propõe o que ela chama de "amor Disney" como amor ideal. Desconstruir premissas do amor romântico que são usadas como forma de violência nas relações se faz urgente". Brigitte aponta que a abordagem vigente sobre não monogamia e poliamor tem criado o que ela chama de "poliamor monogâmico", no qual as pessoas apenas abrem mão da exclusividade sexual, mas seguem fixadas em estruturas de poder, dominação e isolamento. "Isso que nós chamamos de amor, é diretamente a causa da morte violenta de pelo menos 80 mil mulheres por ano." frisou a escritora.
 

É fundamental enxergar o poliamor como um questionamento radical das estruturas monogâmicas, que estão profundamente enraizadas em nossa cultura e moldam nossas expectativas sobre o amor e as relações. Uma das provocações contundentes de Brigitte é a necessidade de repensarmos o casal como identidade. "Aprendemos a dizer somos um casal e não estamos como casal, portanto, isso tem implicações profundas na forma como nos enxergamos e nos relacionamos com os demais vínculos".
 

É importante entender que não existe uma única maneira correta de amar. E trocar o dogma monogâmico por uma "ditadura da liberdade" também não é uma saída. O desafio poliamoroso é, em essência, desafiar um único modelo de amor, que muitas vezes é a origem da guerra, da exclusão, da violência. Para repensar o amor precisamos voltar a dar protagonismo para os vínculos de amizade e pensá-los também de forma política.
 

Ao final da conversa, as especialistas trazem perspectivas de como repensar a monogamia mesmo em arranjos exclusivos. Muito pode ser reconstruído, mas é preciso ir além do discurso raso e da moda.

(fotos/reprodução/internet)

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