por Gregório José
Os números mais recentes do IBGE pintam um quadro alarmante. Mesmo que as mulheres representem ligeiramente mais da metade dos responsáveis pelos domicílios brasileiros (51,7%), quando se trata de segurança alimentar, essa proporção se inverte de maneira gritante. Nos lares onde há comida suficiente, os homens são a maioria (51,3%), enquanto nas casas onde falta comida, 59,4% têm mulheres à frente. Essa disparidade é ainda mais marcante nos casos de insegurança alimentar moderada, onde 60,6% dos lares são chefiados por mulheres.
Este dado revela uma cruel realidade: as mulheres, especialmente as chefes de família, são desproporcionalmente afetadas pela fome. Elas carregam o peso da desigualdade econômica, enfrentando maiores desafios para alimentar suas famílias. A responsabilidade das mulheres em garantir a segurança alimentar, combinada com a desigualdade salarial e a precariedade do emprego, transforma a luta pela alimentação em um verdadeiro calvário diário.
A cor da pele também é um marcador evidente da desigualdade no Brasil. Enquanto 42% dos responsáveis pelos domicílios em segurança alimentar são brancos, apenas 29% dos lares em insegurança alimentar têm um responsável branco. A maior parte dos domicílios onde falta comida é chefiada por pessoas de cor parda (54,5%) ou preta (15,2%).
O nível de instrução é outro divisor de águas na batalha contra a fome. Mais da metade dos domicílios em insegurança alimentar são chefiados por pessoas com, no máximo, ensino fundamental completo. Em contraste, apenas 7,9% dos lares com insegurança alimentar têm responsáveis com nível superior. Nos casos mais severos de fome, essa diferença é ainda mais pronunciada, com 67,4% dos domicílios chefiados por pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade.
A formalização do trabalho também desempenha um papel crucial. Domicílios onde o responsável é empregado com carteira assinada têm uma probabilidade significativamente maior de estarem em segurança alimentar. Em contraste, lares chefiados por trabalhadores informais ou domésticos estão mais propensos a enfrentar insegurança alimentar. Essa realidade evidencia a necessidade urgente de políticas que promovam a educação e a formalização do emprego como pilares fundamentais para combater a fome.
Não basta apenas reconhecer essas disparidades; é imperativo agir. Governos, sociedade civil e setor privado devem unir forças para construir um Brasil onde todos possam prosperar. A fome é uma mancha na nossa sociedade, uma vergonha que não podemos permitir que persista. É nosso dever coletivo garantir que todos os brasileiros, independentemente de sua cor ou gênero, tenham o direito básico de se alimentar. Como dizia Gandhi, “a fome é a pior forma de violência”. E é uma violência que o Brasil não pode mais tolerar.

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