Sutura das veias abertas do meio ambiente latino-americano começa pelo Chile






28 | MAR | 2022

Há 12 dias - com algum destaque, mas nenhum alarde -, após intensa disputa política (inclusive uma primeira rejeição pelo plenário), a Comissão de Meio Ambiente da Convenção Constituinte do Chile conseguiu incluir um artigo estabelecendo os Direitos da Natureza na nova Constituição daquele país.

O artigo 9 determina, portanto, que “indivíduos e povos são interdependentes da natureza e formam, com ela, um todo inseparável. A natureza tem direitos. O Estado e a sociedade têm o dever de protegê-los e respeitá-los. O Estado deve adotar uma gestão ecologicamente responsável e promover a educação ambiental e científica por meio de processos permanentes de capacitação e aprendizado.”

Mas qual o ineditismo, perguntam-se alguns, já que, segundo a ONU, pelo menos 88 países já incluíram o direito a um meio ambiente saudável em suas Constituições?  

A resposta é um detalhe sutil, porém fundamental: a Constituição chilena é a primeira a não submeter a natureza às relações econômicas determinadas pela ação humana. Ou seja, as mesmas que temos praticado nos últimos 262 anos, desde que inauguramos o sistema de produção capitalista e começamos a extrair ferro e carvão do subsolo para manter e expandir a revolução industrial nascente.

Em artigo divulgado internacionalmente a respeito do processo constitucional do Chile, o ex-diplomata boliviano, ambientalista e ex-diretor Executivo da ONG Focus on The Global South, boliviano, Pablo Solón lembrou que os direitos da Natureza “vão muito além da proteção da natureza porque nos dizem que não podemos tratar seres não humanos como simples objetos, coisas e recursos.” E que esta medida é necessária em um momento em que estamos no ponto máximo de desequilíbrio entre as espécies, provocando catástrofes climáticas, ambientais, econômicas e sociais por seguirmos, qual religião, a liturgia do lucro desenfreado.

Solón mirou no planeta, mas a própria realidade chilena e latino-americana denuncia que este cenário apocalíptico pode piorar. Historicamente relegada ao segundo plano da geopolítica mundial, a região sempre teve um papel inegável no fornecimento de recursos naturais estratégicos para os países desenvolvidos. Como citou Eduardo Galeano, no clássico “As veias abertas da América Latina”, entre 1503 e 1660, desembarcaram no Porto de Sevilha, 185.000 quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. E ao longo dos séculos, esta transfusão não estancou: o cobre do Chile, o ferro do Brasil, o estanho da Bolívia.

Agora, estão na berlinda os metais de terras raras e o lítio, principais alimentos da dita Terceira Revolução Industrial, com a ubiquidade telecomunicacional do 5G, a multiplicidade da Internet das Coisas e o gigantismo do Big Data. E dos carros elétricos, claro, cuja frota subirá de três milhões de unidades vendidas, em 2017, para 23 milhões em 2030, de acordo com a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad. E o mercado de baterias para estes carros saltará de US$ 7 bilhões em 2018 para 58,8 mil milhões em 2024, segundo a TDK, multinacional japonesa da eletrônica. Em um planeta hiperconectado, ultraindustrializado e tecnodependente, imaginem o desastre que o esgotamento ambiental destes minerais traria para as economias mundiais?

O Chile possui 48% do total de reservas de lítio no mundo (o que equivale a 7,5 milhões de toneladas, das quais 6 milhões estão no Salar de Atacama. O país faz parte da área conhecida como o "Triângulo do Lítio", formado pelo norte do Chile, norte da Argentina e sul da Bolívia, que dispõe 70% dos depósitos de lítio de salmoura do mundo.

Por hora, a extração do lítio já está condenando à morte as Nações indígenas Atacameños, Licanantay, Colla, Aymara e Quechua que vivem no deserto do Atacama. Além das precárias condições de trabalho, elas estão sofrendo uma crise hídrica sem precedente, uma vez que 65% da água local é consumida pela extração do lítio.

Portanto, a inclusão de um artigo na Constituição que garanta a autonomia da Natureza - como sujeito do ecossistema e não como objeto - é uma tentativa concreta de estancar esta relação de exploração que só faz deteriorar as condições de sobrevivência de quem é explorado.

No Brasil, não temos, a curtíssimo prazo, qualquer esperança de que o exemplo chileno nos chegue como um El Niño libertador que impeça a mineração nas terras indígenas, as queimadas na Amazônia, o desmatamento, o contrabando de madeira e o uso indiscriminado de agrotóxicos. Mas, se o ano de 2022 começou bem no Chile, quem sabe não acaba igual no Brasil?

 

#DESTAQUES

Arma florestal - Um novo estudo apontou que a Amazônia, a bacia do Congo, na África, e as matas do Sudeste Asiático têm um peso grande no resfriamento global e são um arma importante contra o aquecimento global. 

Ouro - A concessionária Norte Energia, dona da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, enviou um pedido ao governo do Estado, para que seja reavaliado o projeto de mineração de ouro da companhia canadense Belo Sun, que pretende transformar uma região localizada a poucos quilômetros da barragem da hidrelétrica no maior garimpo industrial do Brasil.

Multas ambientais - Um cruzamento de dados feito pela Folha revela que mais de R$ 1 bilhão em multas do Ibama, aplicadas em 2020, permanecem sem encaminhamento a setores de conciliação. A lista tem 28 madeireiras autuadas por exploração ilegal de madeira na Amazônia.

#ARTIGOS

Gustavo Pinheiro - Os bons, os maus e os feios na corrida climática

Leonardo Sakamoto - Bolsonaro quer 'vender' Noronha, mas precisa tirá-lo de Pernambuco antes

Affonso Celso Pastore - A agropecuária e o desmatamento

Opinião Estadão - Empresariado almeja a sustentabilidade

Opinião Estadão 2 - Mudança climática demanda adaptação

Angela Barbarulo e Pedro Hartung - Proteger a natureza é cuidar das crianças brasileiras com absoluta prioridade

Maurício Rands - O conflito sobre Fernando de Noronha

Irapuã Santana - Meritocracia é falso argumento contra cotas

Editorial O Globo - No Brasil, novos temporais trazem velhos problemas

Nabil Bonduki - STF abre o caminho para São Paulo banir os agrotóxicos

AD Junior - Diversidade e racismo em pauta

Ana Cristina Rosa - LinkedIn na contramão do mercado

Angela Kaxuyana - Genocídio de indígenas em curso

Fabián Echegaray - Os legados da pandemia de Covid para a agenda sustentável

Claudio Bernardes - Diversidade no mercado imobiliário

Txai Suruí - Demarcar territórios indígenas e aldear a política

#EMPRESAS

Atmos trouxe um desabafo sobre a euforia em torno do ESG em carta aos cotistas 

Budweiser contratou a cantora Ludmilla para abrir espaço a vozes femininas e periféricas

Vale divulgou que as indenizações às vítimas de Brumadinho chegaram a R$3 bilhões. A empresa vai gastar ainda US$ 4,36 bilhões até 2035 para descaracterizar barragens

#EVENTOS

Encontro verde - De hoje a 31 de março acontece a 21ª Cúpula Verde Anual de Wall Street, evento sobre finanças que vai abordar este ano Investimentos e Relatórios ESG, Mercados e Finanças de Carbono e Energia Limpa. 

Encontro - O presidente da COP26, Alok Sharma, se reúne com executivos de grandes companhias como Natura, Bayer e Microsoft nesta terça (29) para discutir formas de cumprir compromissos ambientais, avanço na neutralidade climática e ações do setor produtivo contra o aquecimento global.

#CLIMA

Futuro do planeta -As mudanças climáticas já estão afetando regiões no Ártico que antes pareciam imunes ao aquecimento global, e a consequência pode ser devastadora para o planeta.

Efeitos do calor - Uma calota de gelo com superfície equivalente à da cidade de Los Angeles se soltou totalmente na semana passada na região leste da Antártida.

Meta - A Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur) quer tornar o estado Carbono Zero até 2030.

Mais carvão - Governos pelo mundo têm considerado ampliar o uso de carvão durante a atual crise energética, o que disparou alertas de especialistas em energia quanto ao aumento nas emissões de gases causadores do efeito estufa.

#ENERGIA

Petróleo - O ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail al-Mazrouei, afirmou que é preciso planejamento de longo prazo para as energias renováveis. A afirmação veio por conta da necessidade de alta demanda por petróleo.

#ESG

Sustentabilidade em casa - O Estadão conversou com os CEOs da Natura, BlackRock, EDP e Danone para mostrar como eles adotam a sustentabilidade nas suas casas.

#FINANÇAS

Economia circular - Empresários e especialistas debateram maneiras de avançar na gestão das cadeia e de resíduos no seminário Economia Circular na última semana. Para eles, é preciso integração da indústria e incentivos do governo para aumentar o movimento.

Investimento - Realizada em 2021 com 324 líderes sêniores de investimentos em todo o mundo, uma pesquisa da EY mostra que 90% dos entrevistados dão mais importância ao desempenho ESG quando se trata de suas estratégias de investimento e tomadas de decisões.

#MEIO AMBIENTE

Perigo - Uma pesquisa concluiu que 75,6% da população de Santarém possuem níveis de mercúrio, no corpo, acima do limite de segurança, causado principalmente pelo garimpo.

Medo - Distrito de Brumadinho (MG), Piedade do Paraopeba, vem sofrendo com a falta de transparência em relação às condições da barragem Santa Bárbara, da mineradora Vallourec. Os moradores temem uma nova tragédia na região.

Plástico no mar - No País, os resíduos plásticos correspondem a 48,5% dos itens encontrados no mar, de acordo com o diagnóstico feito pelo programa Lixo Fora D'Água, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Disputa - Há 17 anos uma área no Parque Nacional de Itatiaia, no interior do Rio de Janeiro, tem sido alvo de disputa judicial entre moradores e o ICMBio sobre a manutenção de imóveis particulares no local.

Mutirão - A Prefeitura de Santos, no litoral de São Paulo, realizou um mutirão de limpeza da orla praia que recolheu 268 kg de lixo neste sábado.

#POLÍTICA

Disputa por Noronha - O estado de Pernambuco reagiu, após o governo protocolar uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal) para que o arquipélago de Fernando de Noronha volte a ser um território federal.

Articulação garimpeira - O senador Zequinha Marinho articulou encontro de garimpeiros com ministros para impedir a atuação de agentes do Ibama e da Polícia Federal nas áreas onde atuam de forma ilegal. 

Minimização - O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o Brasil é apenas um "pequeno transgressor" na preservação ambiental e que negociará uma remuneração a ser paga por outros países pela proteção dos recursos naturais.

#SOCIAL

Trabalho escravo - Empregados de uma fazenda em que sua maior parte é arrendada pela Suzano foram flagrados em situação de trabalho análogo à escravidão.

Estratégia ESG é uma iniciativa de Alter Conteúdo em parceria com a agência epbr

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