O poder público acuado


Ladislau Dowbor é economista e professor de pós-graduação da PUC – SP. Seu último livro – A era do capital improdutivo – foi lançado em 2017 com grande repercussão.

Olhar o século 21 – pelas lentes do século 20 – não ajuda. Ao observarmos o mundo da economia, logo pensamos nos interesses econômicos e nos mecanismos de mercado. Mas o poder, a política, o setor público, o setor privado já se apresentam em outra dimensão. A penetração dos interesses privados na esfera pública não é um fato novo. O que há de novo, são a escala, a profundidade e o grau de organização dessa invasão.

As penetrações pontuais do setor privado no setor público – através de lobbies, corrupção e "portas giratórias" – se avolumaram e se transformaram em poder político articulado, assim fragilizando o interesse público. O poder das corporações tornou-se sistêmico, gerando uma nova arquitetura e uma nova dinâmica de poder.

A Google, por exemplo, tem hoje na Europa oito empresas de lobby contratadas, tem financiamentos diretos a parlamentares e a membros da Comissão Europeia. Os gastos mundiais da Google nesta área se aproximam dos gastos mundiais da Microsoft.

Tão relevantes são os financiamentos diretos das grandes empresas privadas nas campanhas políticas. Eles impulsionam partidos políticos e candidatos, propiciando a formação de bancadas corporativas. Com facilidade, alcançam o poder judiciário.

Outra forma de ocupação do espaço público se dá pelo controle da informação. O alcance global dos meios de comunicação de massa – nas mãos dos gigantes corporativos – permitiu que se atrasasse em décadas a compreensão popular sobre o vínculo entre o fumo e o câncer. Igualmente, permitiu que se vendesse ao mundo a guerra do petróleo como uma luta pela libertação da população iraquiana da ditadura. Permitiu que se bloqueasse nos Estados Unidos a expansão do sistema público de saúde.

Uma ofensiva semelhante, em nível mundial, foi arquitetada para desacreditar as verdades sobre as mudanças climáticas, criando a suposição de que havia controvérsias, fazendo travar ou adiar a reformulação da matriz energética dos países.

A vinculação do sistema corporativo mundial com a mídia gera campanhas publicitárias que promovem comportamentos e atitudes consumistas obsessivos nas populações. A mídia fica amarrada de dois modos. Primeiro, não pode dar notícias ruins das corporações, mesmo quando elas entopem os alimentos de agrotóxicos, deturpam a função dos medicamentos, vendem produtos comprometidos com a destruição da natureza. Segundo, exibe obrigatoriamente um mundo cor de rosa ligado às corporações, alheio às notícias de crimes e perseguições policiais. Assim se cria uma população desinformada e assustada, sobretudo obcecada pelo consumo. Um desastre social e democrático.

A influência corporativa sobre as concepções acadêmicas também avançou nas últimas décadas, tanto por meio de financiamentos diretos como pelo controle das publicações científicas. Em muitos países, universidades privadas passaram a ser propriedade de grupos internacionais que trazem a visão corporativa no seu bojo.

A estes mecanismos de conquista do poder é preciso adicionar a invasão da nossa privacidade. Hoje, nossa vida trafega em meios magnéticos, deixando rastros do que compramos, do que comemos, do que lemos, dos amigos que temos, do nosso endividamento. As grandes empresas acessam ou compram essas informações

A expansão dos lobbies, a compra dos políticos, a invasão do judiciário, o controle dos sistemas de informação da sociedade, a manipulação do ensino acadêmico e a invasão da privacidade constituem instrumentos importantes na captura do poder político mundial pelas grandes corporações. O conjunto destes instrumentos leva a um mecanismo poderoso: a apropriação dos resultados da atividade econômica das nações.

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