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quarta-feira, 5 de abril de 2017

OS GRANDES EIXOS DA CRISE

GAUDÊNCIO TORQUATO
 
        
 A crise frequenta as conversas de interlocutores que recorrem à pergunta: “onde estamos, para onde vamos”? Há tensão entre os Poderes, a ponto de se falar abertamente na interpenetração de suas funções, o que resulta em conceitos como judicialização da política ou politização do Judiciário. Na verdade, a crise é da democracia representativa. Que, na visão de Norberto Bobbio, não tem cumprido suas promessas, dentre elas, justiça para todos, educação para a cidadania e combate ao poder invisível, este que se desenvolve nas malhas da administração pública, abrindo amplas teias de corrupção, como se vê na Operação Lava Jato.
Se formos pesquisar as fontes que alimentam a crise, esbarraremos no fenômeno da desideologização. Na sociedade pós-industrial, a administração das coisas materiais prevalece sobre o campo das ideias. As doutrinas murcham fazendo morrer as utopias.
A política passa a servir a uma tríade composta por políticos, burocratas e círculos de negócios.
Nessa moldura, definha a competição política amparada nas ideias; ganha fôlego a burocracia; os grupos sociais tornam-se menos divergentes; os problemas de natureza técnica se sobrepõem às grandes questões sociais; os conglomerados monopolizam as informações. Os partidos de massas, que nasceram sob o signo das lutas operárias, mudam suas bandeiras, integrando-se à expansão econômica. Os aderentes se desmotivaram, deixando declinar interesse pela vida partidária. Otto Kirchheimer, constitucionalista alemão, chegou a cunhar um termo para designar os protagonistas nesses tempos de luta do poder pelo poder: “catch-all parties” (partidos que “agarram tudo o que podem”). O voto passa a ser de permuta e o apoio político se dá em troca de favores.
Mudanças na geopolítica internacional redesenham a configuração do Estado. Quando o Estado acaba sob o controle de mecanismos internacionais, o cidadão acaba vendo estreitados seus direitos. Já o mercado ganha força como mecanismo auto-regulador da vida econômica e social. Sob essa nova ordem, as pessoas se voltam para o consumismo e a priorizar as questões materiais.
Os efeitos chegam ao campo da micropolítica. As comunidades procuram satisfazer suas demandas imediatas: a iluminação do bairro, a escola próxima à casa, o alimento barato.
Na esteira dessas exigências, os cidadãos adquirem maior racionalidade, adotando novos comportamentos. Sabem o que querem e como definir os meios para atingir as metas. Núcleos se formam no entorno de entidades e estas passam a intermediar interesses. Organizações não governamentais em todas as esferas se multiplicam, fazendo pressão sobre os Poderes constituídos e buscando respostas para as demandas mais prementes. Por isso, a teia associativa tem uma atuação de cunho político: mobiliza a população, faz ecoar sua expressão nos vãos da política, articula na escolha de candidatos que serão seus representantes nas casas congressuais.
É assim que os movimentos contribuem para reavivar as identidades nacionais, as forças das regiões, como parece ocorrer nos Estados Unidos e, agora, no Reino Unido, que sinaliza a saída da União Europeia.
Atuando nas frentes da competição política, alguns até tentando reavivar o espírito ideológico. Mas o que sobressai é seu modus operandi. A personalização do poder emerge com força, alavancada pelos instrumentos do Estado-Espetáculo.
Novos condimentos, novos valores, novas inspirações constituem o menu que agrada aos grupamentos sociais. Cada vez mais distante da tradicional classe política, os cidadãos repelem os padrões da velha política, o fisiologismo, o caciquismo, o grupismo. Acolhem de maneira generosa aqueles que expressam foco em resultados. Querem mais ação e menos discurso.
      Com um acento mais grave ali, outro mais suave aqui, esta a leitura que se pode aplicar à nossa paisagem político-institucional. 
 

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato
 

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