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sábado, 4 de junho de 2016

Habilidades

Reginaldo Villazón

A popularização dos automóveis com câmbio automático nos Estados Unidos, na década de 1950, facilitou a vida dos motoristas daquele país. Os automóveis passaram a ser fabricados e entregues aos compradores sem duas peças, antes indispensáveis: o pedal de embreagem e a alavanca de mudança de marchas. Não era mais preciso dirigir, fazendo uso coordenado do pé esquerdo e da mão direita para selecionar as marchas. Isto era feito de modo automático. Foi uma grande inovação nos automóveis.

No entanto, apaixonados por automóveis e pela arte de dirigir ficaram decepcionados. Eles concordaram: a nova tecnologia trouxe benefícios, inclusive maior segurança no trânsito. Porém – disseram – ela deixou os automóveis incompletos e assim ficou impossível dirigir sentindo o ronco do motor, a velocidade do veículo, as condições do terreno. E pior – completaram –, os motoristas ficariam menos hábeis, dependentes da nova tecnologia. O tempo provou que todos – a favor e contra – tinham razão.

Hoje os câmbios automáticos evoluem e ganham espaço no mundo, sem que o câmbio manual seja desprezado. Discussões interessantes como esta – sobre câmbios de automóvel – se transferem para outras tecnologias. É bom que máquinas e tecnologias apareçam para facilitar o trabalho, reduzir a fadiga e baixar os riscos humanos. São muito úteis as máquinas automáticas que movimentam peças pesadas e executam serviços perigosos com precisão, sem necessidade do contato humano direto.

E olha que há gente descontente, especialmente com tecnologias que podem escravizar e imbecilizar usuários desprevenidos. Um exemplo é o GPS (Sistema de Posicionamento Global), cada dia mais usado pelos motoristas para orientação nas cidades e rodovias. Seguindo suas instruções (siga em frente, vire à direita, vire à esquerda...), é possível chegar ao endereço desejado sem conhecer o percurso. O alerta é sobre a redução da habilidade dos motoristas em se orientarem e tomarem decisões.

Novas tecnologias são inevitáveis e trazem progresso. Habilidades criam competências. Precisam existir juntas. Em 2014, o acesso à Internet chegou a 50% dos lares brasileiros. Ficaram fora os outros 50%, o que é muito. Além disso, estudos mundiais revelaram que os brasileiros são fracos nas habilidades de navegar, pesquisar e aprender na Internet. Estas informações indicam que a insuficiência – tanto de tecnologias como de habilidades – pode acarretar prejuízos sociais relevantes.

Quando novas tecnologias chegam, tomam lugar e dão mais certo se as habilidades humanas prosperam. Habilidades tradicionais – como trocar pneu, usar furadeira e cozinhar – não perdem o valor e até se modernizaram. Novas habilidades – como entender inglês, trabalhar on-line e gerir finanças pessoais – tornaram-se obrigatórias. Nós temos que utilizar novas tecnologias, mesmo que sejam passageiras. E, tão importante, cuidar para acrescentar novas habilidades às que já possuímos.

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