Marta Fernandes de Sousa Costa
Como a idéia era passar quinze dias em Punta Del Este, a mulher começou a organização da bagagem alguns dias antes. "Bagagem?" Os homens já se ouriçaram, sei. Das mulheres, ao contrário, sinto a solidariedade. Principalmente de todas as que já viveram a experiência de um apartamento alugado, seja em que praia for.
Apartamento alugado pressupõe o transporte de vários itens: no mínimo, duas mudas de lençóis para cada cama, dois jogos de toalhas de banho por pessoa, mais duas de rosto avulsas, sem contar as de praia e dois guardanapos de copa. Tudo isso já enche uma bolsa, naturalmente.
A mulher desta história, como tantas que devem existir por aí, também "precisa" levar torradeira elétrica (quem sabe a cafeteira?). Além dos copos para espumante e uma petisqueira, pois temporada que se preze inclui receber amigos e alguns proprietários optam por guardar seus melhores copos, com medo dos inquilinos, que muitos não sabem cuidar do que não lhes pertence. Assim, pagam um pelos outros. Ah, falta o secador de cabelos, aquele grande, potente, e dois rolos de papel higiênico, óbvio. "Papel higiênico?" – pergunta o marido, acostumado a ter tudo nas mãos, a tempo e a hora, graças à "premeditação" da dita esposa. "Não há lá pra comprar?" – alfineta, recebendo um olhar de "sei das coisas". E, com tais cuidados, a segunda bolsa está cheia.
A mala dele e a dela, ambas de tamanho médio, já estão prontas com as roupas que ela considerou indispensáveis, muitas que irão passear, na opinião dele, baseada em experiências anteriores. Fechada na véspera à noite, a mala dele pernoita no corredor, junto com as duas bolsas e o saco plástico com os dois travesseiros da NASA novos em folha, que só irão se sobrar lugar. A mala dela é fechada no último momento, o que possibilita acrescentar uma bermuda dele e duas cuecas, entregues à última hora.
Prontos para partir, a mulher lembra a bolsinha das pinturas, que completa com o shampoo, o condicionador, o filtro solar, as escovas de dentes, a pasta e o fio dental. Corre para pegar o computador. Ufa! E ainda falta a sacola com livros, lápis de cor, adesivos e material para a neta, que criança precisa de distração. É nesse ponto que o marido, até então alheio aos preparativos, começa a estrilar.
Aí chega a hora de encher o automóvel. O marido apresenta as suas prioridades, a mochila com o seu computador sendo a menor delas. Sem querer abdicar das escolhas, a mulher se apressa a levar tudo até o automóvel, sob os protestos masculinos. O funcionário consegue acomodar as coisas de um e de outro no porta-malas e os dois partem, reconciliados. "Tem água gelada?" – ele pergunta, lá adiante. "Tem" – ela responde, gloriosa. Mulher organizada, essa.
Chegados ao destino, entram na garagem do edifício e ele retira tudo do carro. "Ué, cadê a outra mala?" – ela pergunta, sem acreditar. "Deixei a minha" – pensa, sentindo-se injustiçada, após tanto empenho. Mas, por razões que talvez só Freud explique, foi a dele que ficou esquecida no corredor da casa.
E, só pra completar, não havia sequer um restinho de papel higiênico em nenhum dos três banheiros; os travesseiros foram importantes, mas a torradeira não era necessária; a neta adorou todos os livros; a compra de um coador de pano solucionou a falta da cafeteira; os amigos do terceiro andar emprestaram mais copos; o marido concluiu que só precisa de uma camisa, se alguém se encarregar de lavá-la à noite, mas julgou necessário adquirir um ventilador. Ah, o filho trouxe a mala. E a nora descobriu que a sogra não era tão organizada como se fazia, porque esquecer a mala do marido ainda vá, mas a bolsinha da maquiage nenhuma mulher que se preze esquece.martafscosta@gmail.com

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