Tentativa de Superação do Abandono e Solidão das Crianças Pobres"

*Heloísa Helena
A defesa dos Direitos das Crianças é sempre parte dos discursos políticos e dos programas eleitorais... entretanto a realidade de abandono e negligência do setor público para com elas mostra claramente como a demagogia é ferramenta poderosa para vitórias eleitorais e instrumento perverso de preservação do absurdo processo de aniquilamento da infância.
 Muitos, em todos os partidos, menosprezam este debate! A direita
reacionária e corrupta nem se incomoda com isso - rouba da merenda escolar
para comprar uísque e sem escrúpulos rouba a dignidade humana - e sempre
acaba se dando bem em terras-sem-lei, como a nossa e muitas outras também!
Setores da esquerda acham este debate menor e típico do paternalismo
caritativo e assim se contentam com as revoluções em mesa de bar ou
guerrilhas na internet onde adoram proclamar que esperem o socialismo -
pois só ele resolverá - mas usufruem das oportunidades do teto digno pra
se abrigar, dos lençóis limpos para os filhos, dos planos de saúde, das
escolas que ofertam dignidade.
A sociedade, em geral, fica extremamente comovida diante de casos
extremos: "crianças morrem queimadas após incêndio no barraco... a mãe
tinha saído para trabalhar!"; "bebê recém-nascido encontrado morto dentro
de uma lixeira no banheiro do supermercado!"; "encontradas duas crianças
carbonizadas em incêndio na favela...os pais trancaram a porta de cadeado
com medo da violência"; "pai espanca o recém-nascido até a morte!";
"criança de um ano morre após ser estuprada em casa!"... Mas essa mesma
sociedade, em maioria, observa com distância e pouco incômodo a situação
indigna das trabalhadoras da educação, das mulheres pobres e a profunda
humilhação das crianças jogadas na solidão da extrema miséria humana!
É verdade que existem grande lutas a serem travadas neste país que joga
nos paraísos fiscais mais de 60 bilhões de dólares de fortunas de alguns
poucos brasileiros - parasitas-sem-pátria - patrocinados por carcomidas
políticas econômicas que impedem alternativas de dinamização econômica,
geração de emprego e renda no campo e cidade, e políticas sociais que
possibilitem ao menos a inclusão de populações vulneráveis socialmente.
Mas enquanto nós lutamos para promover as grandes mudanças estruturais
podemos lutar também para garantir, ao menos de imediato, 12 mil novas
Unidades Educacionais como possibilidade concreta de um lugar digno para abrigar mais de 15 milhões de crianças de 0 a 3 anos que vivenciam
miseráveis experiências cotidianas de humilhações diversas e abomináveis.
Esta luta é travada cotidianamente por conselheiros tutelares, movimentos
sociais, agentes públicos comprometidos, intelectuais ou pessoas simples e
lutadoras espalhadas pelo Brasil...é a luta desesperada de mulheres mães e
avós - que precisam trabalhar e estudar - buscando um lugar digno para a
proteção das suas crianças! Certamente, alguns farsantes da política,
geralmente os ladrões ou a eles coligados, gritarão: "... Onde tem
dinheiro pra tudo isso?"... mas a preocupação das excelências delinquentes
não é por incompetência técnica de não compreender que menos de 2% do
Orçamento da União garantiria de forma impecável a concretização dessa
meta...é falta de compromisso social! Aliás, ainda lembro a histeria no
antro da vadiagem política, em Alagoas e Brasília, para impedir a
aprovação da PEC 40 de minha autoria - que garantia a obrigatoriedade da
Educação Infantil... foram 5 anos de lutas para conseguir aprovar no
Senado! E depois ainda tive que ver os 7 milhões de reais que mandei para
construção de creches em Alagoas serem devolvidos ao Governo Federal num
misto de incompetência e vagabundismo vulgar típico da "nossa" política
local!
O mais doloroso mesmo, é que todos sabem que os mais importantes estudos
em neurociência apresentam elementos extremamente importantes para a
compreensão dos três primeiros anos de vida do ser humano, onde o cérebro
constrói estruturas duradouras que permitirá e determinará a capacidade de
aprendizagem, memória, raciocínio, habilidades linguísticas, sociais e
afetivas. A rede de conexões neurológicas desse período potencializa não
apenas as habilidades em lógica e matemática, a evolução da linguagem e da
percepção ou coordenação motora... mas também um belíssimo período da
nutrição do afeto, da estruturação dos preciosos laços de afetividade que
muitas vezes a vulnerabilidade econômica, a desestruturação familiar, o
alcoolismo e outras drogas psicotrópicas impedem que as pequeninas
crianças possam vivenciar em suas casas.
Algumas crianças estão em creches brincando em areia esterilizada, em piso
de vinil acolchoado, com ensino bilíngue a partir de 10 meses de idade,
com pediatras e outros profissionais à disposição em tempo integral, com
seus pais recebendo até fotos pelo celular todos os dias! Mas a grande
maioria, a imensa maioria das nossas crianças, convive apenas com o medo,
a tristeza, a violência, a frustração e a solidão da indigência!
É preciso lutar por toda a Educação Infantil, em todas as suas etapas e em
qualquer denominação que a elas sejam dadas! Alguns acham ríspido tratar
deste tema de tal forma... eu apenas repito Saramago... "Se tens o coração
de ferro, bom proveito! O meu fizeram-no de sangue e sangra todo dia!"
Heloísa Helena é vereadora pelo PSOL em Maceió,
Twitter: @_heloisa_helena


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